A porta detrás dava para o canto de dentro. E ali naquele quarto, dependurada de lado, assuntava da janela dona Juraci. De dentro de seu retrato. Com o ouvido bem aproximado, a gente sentia gemer a correria do sangue e todo seu traslado. Um testemunho pacato, sem nunca nada tocar que não fosse apenas uma impaciente coceira no parte redonda do calcanhar. Do esqueleto em cores sombreadas lhe sobrepunha a língua de pouco pudor, comentava consigo mesma, e nem percebia sujar a moldura umas manchas de bolor. Os olhos que lhe pousavam diante falavam, ah que bonita, lhe anotando por aquilo que tinha de feio, um gesto sentenciando. De tanto calor e medo de embaçar, regava de lágrima o vidro e voltava a se enxergar. No detalhe mínimo. No quadrado formato da imagem não se notavam com clareza o suor de seus amores e o seu gosto profano pelas safadezas. Vivia à parte do tempo não reparando que no cruzar das imagens outros filmes iam se alvoroçando. Quando o vento chocou a porta, seu retrato se quebrou e foi ali que eu percebi, minhas partes pequenas nos cacos, ela lá me mostrando aqui. Eu e dona Juraci.
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